
Áreas de Atuação da Medicina: 36.452 Certificados
Última verificação normativa: 11 de outubro de 2026
As áreas de atuação da medicina ganharam, pela primeira vez, uma contagem nacional: a Demografia Médica no Brasil 2025 (Scheffer, 2025) registra 36.452 certificações nas 62 áreas reconhecidas, com dados de 2024 (Tabela 4, p. 206-207). Quatro áreas concentram 31,1% desse total. Duas, Oncogenética e a que a tabela chama de “Nutrição Pediátrica”, não tinham nenhum médico certificado no momento do estudo.
O tema ganhou atualidade em 23/09/2026, quando a Câmara Técnica de Neonatologia do CFM (Conselho Federal de Medicina) informou que pretende construir um diagnóstico da neonatologia, a maior das 62 áreas, que deverá incluir o número de médicos com RQE (Registro de Qualificação de Especialista).
Ler esse número exige três cuidados, e cada um muda a conclusão: certificação não é médico, certificação não é RQE, e a especialidade que dá acesso a uma área não diz de onde vieram os certificados. Este artigo descreve o retrato com a página da fonte em cada número. Não é conselho de carreira nem previsão de mercado.
Quantas certificações existem nas áreas de atuação da medicina
São 36.452 certificações, distribuídas pelas 62 áreas, segundo a Tabela 4 da Demografia Médica no Brasil 2025 (p. 206-207). O relatório avisa que traz esse levantamento “pela primeira vez” (p. 206), e a metodologia confirma que as áreas “foram incluídas de forma inédita nesta edição” (p. 202).
As 62 são o rol vigente da Resolução CFM nº 2.380/2024, item B, que constava “Em vigor” no portal do CFM em 11/10/2026. Buscas no mesmo portal, nessa data, não encontraram norma posterior que mude a relação: a área de Cardiointensivismo, por exemplo, segue sem resolução publicada, como mostra o status atual do Cardiointensivismo. A relação nominal está na lista completa das 55 especialidades e 62 áreas, e este artigo não a repete.
Três cuidados de leitura
- Certificação não é médico. O título da seção do relatório fala em “36,4 mil médicos certificados” (p. 206), mas a nota da Tabela 4 é explícita: “Esta análise utilizou o número de certificações em áreas de atuação da medicina”. Um médico pode ter mais de uma. A metodologia (p. 202) lista três bases para especialidades (353.287 indivíduos, 477.155 títulos e 391.909 registros) e nenhuma contagem de indivíduos para as áreas. Por isso não existe, na fonte, o número de médicos com ao menos uma área, nem a fração de especialistas que têm uma.
- Certificação não é RQE. A Demografia Médica cruza as bases da CNRM (Comissão Nacional de Residência Médica) e da AMB (Associação Médica Brasileira), conforme a p. 202. O RQE é o registro no CRM (Conselho Regional de Medicina). Pela Resolução CFM nº 2.336/2023, que regula a publicidade médica, Art. 13, § 2º: “Para os efeitos da aplicação desse artigo, é considerado especialista e detentor de título em área de atuação todo aquele que apresentar RQE”. Como esse registro funciona está no guia do RQE da especialidade-mãe e da área.
- Certificação não se soma a título de especialista. A área exige “título anterior em uma especialidade médica e tempo de formação adicional” (p. 206). Somar as duas contagens conta o mesmo médico duas vezes.
Exemplo concreto. Uma pediatra com certificado em Neonatologia e em Medicina Intensiva Pediátrica aparece em duas linhas da Tabela 4 e conta duas vezes nos 36.452. Ela também está entre os 47.787 especialistas em Pediatria (atlas, p. 432). Registrados no CRM, seriam três RQE distintos, mecanismo explicado em quantos RQE um médico pode ter.
As quatro áreas que somam 31,1% das certificações
Neonatologia, Ecocardiografia, Medicina Intensiva Pediátrica e Dor concentram 31,1% de todas as certificações. O texto da p. 208 traz a conta: “Juntas, essas quatro áreas concentram 31,1% de todas as certificações (Tabela 4)”. As dez maiores, pela Tabela 4 (p. 206):
| Área | Certificações | % | % acumulado |
|---|---|---|---|
| Neonatologia | 4.355 | 12,0 | 12,0 |
| Ecocardiografia | 2.831 | 7,8 | 19,7 |
| Medicina Intensiva Pediátrica | 2.698 | 7,4 | 27,1 |
| Dor | 1.465 | 4,0 | 31,1 |
| Angiorradiologia e Cirurgia Endovascular | 1.340 | 3,7 | 34,8 |
| Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista | 1.206 | 3,3 | 38,1 |
| Ecografia Vascular com Doppler | 1.126 | 3,1 | 41,2 |
| Endoscopia Ginecológica | 1.065 | 2,9 | 44,1 |
| Endocrinologia Pediátrica | 1.017 | 2,8 | 46,9 |
| Neurologia Pediátrica | 974 | 2,7 | 49,6 |
Dez das 62 somam 49,6% do total. Na outra ponta, as 31 menores somam 15,3% (conta sobre a Tabela 4). A média é de 587,9 certificações por área, mas a mediana é de 364: poucos itens grandes puxam a média para cima.
A fonte nota que as áreas “ligadas a problemas de saúde em crianças”, como Endocrinologia Pediátrica, Cardiologia Pediátrica e Neurologia Pediátrica, “também se sobressaem em número de médicos certificados” (p. 208).
Um cuidado sobre a terceira linha. Medicina Intensiva Pediátrica não é especialidade, e seus 2.698 certificados não entram na contagem dos 10.412 especialistas em Medicina Intensiva nem se somam a ela, como detalha o retrato de quem tem RQE em Medicina Intensiva.
Exemplo concreto. Só a Neonatologia, com 4.355 certificações, supera as 27 menores áreas somadas (4.144, conta sobre a Tabela 4, p. 206-207).
Nove áreas com menos de 100 certificados, e duas sem nenhum
Nove das 62 têm menos de 100 certificações cada e, juntas, somam 203, ou 0,6% do total (conta sobre a Tabela 4, p. 207):
- Infectologia Hospitalar: 48;
- Medicina Aeroespacial: 45;
- Foniatria: 44;
- Nutrição Parenteral e Enteral Pediátrica: 28;
- Toxicologia Médica: 22;
- Medicina Tropical: 12;
- Atendimento ao Queimado: 4;
- “Nutrição Pediátrica”: 0;
- Oncogenética: 0.
Para as sete primeiras, a fonte oferece explicações em bloco: seriam áreas “mais recentes, menos demandadas pelo sistema de saúde ou já supridas pelas especialidades médicas” (p. 208). O texto não diz qual dessas razões vale para cada uma, e este artigo não faz essa atribuição. Sobre as duas últimas, a fonte registra apenas que, “embora reconhecidas, não tinham ainda nenhum médico certificado no momento do estudo” (p. 208).
Oncogenética. A área entrou na relação em 2024. A exposição de motivos da Resolução CFM nº 2.380/2024, publicada no DOU (Diário Oficial da União) de 24/06/2024, informa que a Portaria CME nº 1/2024 acrescentou Oncogenética, com dez especialidades de base, entre elas Genética Médica, Oncologia Clínica e Mastologia (item D). Na Tabela 7 do capítulo de residência (p. 159-160), ela não tem nenhum residente em 2024. A Demografia Médica não liga o zero à data de criação; os dois fatos ficam lado a lado.
“Nutrição Pediátrica” e Nutrologia Pediátrica. A norma não tem área chamada “Nutrição Pediátrica”. O item B da Resolução CFM nº 2.380/2024 traz, no nº 47, “Nutrologia pediátrica”, com base em Nutrologia ou Pediatria (item D). Dos 62 nomes da Tabela 4, este é o único que não coincide com a norma. A própria Demografia Médica usa “Nutrologia Pediátrica” em outra tabela, a de residentes, e ali registra 18 médicos em formação na área em 2024 (Tabela 7, p. 160). A fonte não explica a diferença de nome.
Exemplo concreto. Zero certificado não quer dizer zero médico na área. Em 2024, a área que a Tabela 4 rotula “Nutrição Pediátrica”, e que a norma chama de Nutrologia pediátrica, tinha 0 certificações; na Tabela 7, com o nome da norma, aparecem 18 residentes. Quem lê “duas áreas sem nenhum médico” perde essa distinção.
Pediatria: base de 25 das 62 áreas de atuação da medicina
A Pediatria é a especialidade que mais aparece como base no rol. Pelo item D da Resolução CFM nº 2.380/2024, que lista os requisitos de cada certificação, a residência em Pediatria é uma das bases aceitas em 25 das 62 áreas (contagem sobre o campo “CNRM” de cada item). Em seguida:
- Clínica Médica: 9 áreas;
- Cardiologia, Ginecologia e Obstetrícia e Neurologia: 8 cada;
- Cirurgia Geral e Psiquiatria: 7 cada.
Em duas áreas, a Pediatria é a única base pela via da residência: Neonatologia e Medicina do Adolescente. Pela via da AMB, ela aparece em mais três, mas só com um certificado prévio de outra área: em Ecocardiografia e em Hemodinâmica e Cardiologia Intervencionista, o requisito é “TEAMB em Pediatria + certificado de atuação em Cardiologia Pediátrica”; em Endoscopia Respiratória, com certificado em Pneumologia Pediátrica. TEAMB é o título de especialista da AMB.
O peso também aparece nos números. As 18 áreas cujo nome remete à criança ou ao adolescente (Neonatologia, Medicina do Adolescente, Psiquiatria da Infância e Adolescência e as que levam “Pediátrica”) somam 14.987 certificações, 41,1% do total (conta sobre a Tabela 4). É um recorte pelo nome da área, não pela especialidade de quem a certificou.
Esse limite é decisivo. Uma área que aceita a Pediatria como base não é uma área de pediatras: a Demografia Médica não informa de qual especialidade veio cada certificado. A Dor, por exemplo, aceita nove especialidades, como mostra o guia das especialidades-mãe de cada área. A mesma conta, do lado de outras especialidades, aparece no retrato da Clínica Médica (9 áreas) e no da Medicina de Família e Comunidade (3 áreas).
Exemplo concreto. Os 2.831 certificados de Ecocardiografia não podem ser divididos entre cardiologistas e pediatras: pela residência, a área exige Cardiologia; pela AMB, aceita também o pediatra com certificado em Cardiologia Pediátrica. A fonte não separa os dois grupos.
Residência: 2.270 médicos em 53 das 62 áreas
Em 2024, 2.270 médicos cursavam residência nessas áreas, além dos 47.718 residentes nas 55 especialidades, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025 (p. 158). “São médicos que já haviam concluído a residência antes em alguma especialidade”, diz o texto. Havia vagas ocupadas em 53 das 62 áreas.
As nove sem residente em 2024, pela diferença entre o item B da norma e a Tabela 7 (p. 159-160), são: Auditoria Médica, Densitometria Óssea, Estimulação Cardíaca Eletrônica Implantável, Mamografia, Medicina Tropical, Nutrição Parenteral e Enteral Pediátrica, Oncogenética, Toxicologia Médica e Ultrassonografia Geral. Em Auditoria Médica, a residência é “Opcional” no item D.
A concentração repete a do estoque. Cerca de 50% dos residentes (1.068) estavam em seis áreas: Neonatologia (15,3%), Medicina Intensiva Pediátrica (9,7%), Neurologia Pediátrica (6,2%), Ecocardiografia (6,1%), Cardiologia Pediátrica (5,5%) e Endocrinologia Pediátrica (4,2%), segundo a p. 159. O estado de São Paulo, sozinho, tinha 41,2% das vagas ocupadas nessas áreas (p. 159).
Uma nota de método. A mesma fonte fala em 2.161 residentes nessas áreas na seção de perfil (p. 163), contra 2.270 na p. 158 e na Tabela 7. O relatório não explica a diferença; este artigo usa 2.270, que é a base da tabela por área.
Exemplo concreto. Estoque e formação medem coisas diferentes. Cirurgia Videolaparoscópica tinha 617 certificações e 1 residente; Neurologia Pediátrica, 974 certificações e 141 residentes (Tabela 4, p. 206-207; Tabela 7, p. 159-160). A certificação também pode vir pela AMB, sem residência, e a Demografia Médica não mostra essa divisão por área.
Neonatologia: 4.355 certificados e o diagnóstico planejado no CFM
A Neonatologia é a maior das 62: 4.355 certificações, 12,0% do total (Tabela 4, p. 206), e 348 residentes em 2024, 15,3% dos 2.270 residentes das 62 áreas (Tabela 7, p. 160).
Ela é área de atuação, não especialidade. Está no item B da Resolução CFM nº 2.380/2024, nº 41, e o item D exige residência em Pediatria ou título de especialista em Pediatria (TEAMB), com formação de 2 anos.
Atualização de 23/09/2026 (conferida em 11/10/2026). O CFM realizou audiência sobre uma proposta de fortalecimento da neonatologia, apresentada pela sua Câmara Técnica de Neonatologia, segundo a notícia oficial do CFM sobre a audiência de neonatologia. O texto informa que a Câmara Técnica “pretende construir um diagnóstico da situação da neonatologia no País”, reunindo “a oferta e a ocupação de vagas de residência, a distribuição dos especialistas e o número de médicos com Registro de Qualificação de Especialista (RQE) na área”. Entre os pontos da proposta, a notícia cita “a falta de profissionais em determinadas regiões” e “a existência de vagas ociosas nos programas de residência”.
Três observações para ler essa notícia junto com os números:
- A notícia usa “especialidade” no sentido corrente. Na norma, a neonatologia é área de atuação.
- O diagnóstico, segundo a notícia, deverá contar RQE registrado nos CRMs. A Demografia Médica contou certificados nas bases da CNRM e da AMB. São medidas diferentes, e o número do CFM pode não coincidir com os 4.355.
- As vagas ociosas são afirmação da proposta apresentada ao CFM. A Demografia Médica não traz vagas autorizadas e ocupadas por área, nem a distribuição dos certificados por estado.
Exemplo concreto. Um pediatra que concluiu a residência em Neonatologia e tem o certificado entra nos 4.355. Se não registrasse a área no CRM, não entraria na contagem de RQE que a Câmara Técnica pretende fazer. É a diferença entre ter a certificação e poder anunciá-la, conforme o Art. 13, § 2º, da Resolução CFM nº 2.336/2023.
Conclusão
O retrato das áreas de atuação da medicina, segundo a Demografia Médica no Brasil 2025 (Scheffer, 2025), é o de um rol muito concentrado: Neonatologia, Ecocardiografia, Medicina Intensiva Pediátrica e Dor somam 31,1% das 36.452 certificações, e nove áreas ficam abaixo de 100. A Pediatria é a base mais frequente do rol, presente em 25 das 62 áreas pela via da residência.
O número tem limites que a própria fonte declara. Conta certificações, não médicos; conta certificados nas bases da CNRM e da AMB, não RQE nos CRMs; e não diz de qual especialidade veio cada certificado. O relatório também não permite dizer se esses números bastam, e este artigo não faz essa projeção. Para o panorama das 55 especialidades, veja o censo do RQE no Brasil.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta às normas oficiais do CFM e da AMB. Dados conferidos na fonte em 11/10/2026.
Perguntas frequentes
Quantos neonatologistas existem no Brasil?
A Demografia Médica no Brasil 2025 registra 4.355 certificações em Neonatologia em 2024, a maior das 62 áreas (Tabela 4, p. 206), e 348 residentes (Tabela 7, p. 160). O número de RQE registrado nos CRMs não está na fonte; segundo notícia do CFM de 23/09/2026, a Câmara Técnica de Neonatologia pretende fazer um levantamento que deverá incluir esse dado.
Neonatologia é especialidade?
Não. Neonatologia é área de atuação, nº 41 do item B da Resolução CFM nº 2.380/2024. O item D exige residência em Pediatria ou título de especialista em Pediatria da AMB, com formação de 2 anos. É, portanto, uma certificação que pressupõe a especialidade, não uma especialidade à parte.
Área de atuação tem RQE?
Sim. Na Resolução CFM nº 2.336/2023, de publicidade médica, o Art. 13, § 2º, diz: "Para os efeitos da aplicação desse artigo, é considerado especialista e detentor de título em área de atuação todo aquele que apresentar RQE". Pelo § 1º, alínea "c", a área de atuação, quando divulgada, segue a mesma regra da especialidade: acompanhada do número de RQE.
Quantos médicos têm área de atuação no Brasil?
A fonte não informa. A Demografia Médica no Brasil 2025 conta 36.452 certificações nas 62 áreas de atuação da medicina (Tabela 4, p. 206-207), e um mesmo médico pode ter mais de uma. A nota da tabela declara a unidade: número de certificações. Por isso o total não equivale ao número de médicos certificados.
Por que Oncogenética não tem nenhum médico certificado?
A Demografia Médica no Brasil 2025 registra zero certificação (Tabela 4, p. 207) e não explica o motivo. Dois fatos constam das fontes, sem ligação estabelecida: a área entrou na relação em 2024 (Resolução CFM nº 2.380/2024) e não aparece entre as áreas com residentes naquele ano (Tabela 7, p. 159-160). A fonte não atribui o zero à data.


